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Obrigada, Mariano
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"O observador literário, de Antonio Candido, reeditado pela editora Ouro sobre Azul (Rio de Janeiro, 2004). Antonio Candido é o nosso mestre absoluto da crítica. Deste volume, eu destacaria os ensaios sobre Gonzaga e Eliot".
Paulo Henriques Brito é poeta, ficcionista e tradutor carioca

"Encarniçado (São Paulo, editora Baleia, 2004) do escritor baiano João Filho. Os contos são amarrados por linhas inusitadas, tramadas pela poesia-prosa árida, crua e, ao mesmo tempo, lírica do novo autor, que merece atenção".
Crib Tanaka é escritora e jornalista carioca
(Correio das Artes, edição de 30 de abril e 1 de maio de 2005)
Escrito por Crib Tanaka às 14h17
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Desfios do Interlúdio

(Mariana Newlands)
Adoro ganhar presentes pela manhã.
15:13- publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 14h16
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Aposte nas cartas

Subindo no castelo de cartas imaginárias, disputava, por entre copas de árvores, algumas espadas. Tudo para que o coração não virasse losango. Não gostaria de pontas machucando seu peito, aquadradando sentimentos.
Misturou às cartas tradicionais, outras, ciganas, para proporcionar novas leituras no castelo que montava. Logo, a lua estava em cima da torre, que, por sua vez, servia de teto. E de teto, passou a casa. E de casa, passou a prisão.
Decretou inferno, inverno, salve-me. Depois de dias esperando ajuda, resolver se enforcar. Não achou corda.
Em poucos dias, o peito adquiriu formas metálicas. Parecia ter engolido alguma placa. Logo entendeu: era agora dentro do losango que estariam seus pensamentos, sentimentos, pentimentos. Não titubeou: jogou-se no chão com peito estufado, apertando, com o próprio peso, uma das pontas da forma geométrica que crescia dentro dela.
Foi achada luas depois, em forma de ás. Nunca nasceu para Rainha.
17:45 - publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 16h45
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Sempre Alice

Escrito por Crib Tanaka às 16h45
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(Löis Lancater)
Eu acho Patti Smith a sua cara, ele disse assim como quem declara admiração eterna. Ela, baby doll suado, deitada no colchão coberto pelo lençol verde - verde como a parede de texturas diferentes, a cor preferida dele - tardou reação. O ventilador girava pegando metade seu corpo, metade o corpo dele, apoiado na cadeira, perto do computador. Ele rosto virado para ela, que perguntou por que? E ouvia a música, soando-lhe bem aos ouvidos de verão, inquietos. Porque ela é visceral disse ele e com um movimento leve e ao mesmo tempo brusco, ela o engoliu.
15:29 - publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 14h27
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Coreografias do cotidiano

(Basquiat)
Se dentro da caixa de vidro, o reflexo das próprias mãos machucava a visão, virava o corpo em direção a outra das paredes. Mas, logo elas estavam lá de novo: as mãos, os reflexos. Batia na redoma, barulho oco. Grito abafado. O bafo gerando calor e rodelas acizentadas nas transparências. Respiração acelerando. Calor na testa. Pernas moles. Sufoca.
Todos os dias o pesadelo se repetia.
Café da manhã, pão com queijo e café em vidro As instantaneidades. Grãos reprocessados de rapidez ilusória prontos para serem misturados a flashes de água fervente. Jornais. No plural, porque formador de opinião tem que ler mais de um. Seguem os olhos direto para os cadernos culturais, procura notícias, nada. Computador. Mensagem 1 de 33. Informes diários, mundiais! – veja a amplitude.
O ônibus medido por três números. O mesmo trajeto, todos os dias. Um café na esquina (,) dos não-instantâneos. Desce viscoso, com cheiro, gruda um pouco na garganta. A saliva prende naquele amargo com doce de adoçante. Sinto o coração um pouco mais acelerado, suor na testa. Subo as escadas, bom dia, oi, tudo, entro no elevador, oitavo, tchau, obrigada. Duas voltas na porta, oi, oi, tudo bem, tudo. Aqui o jornal, ok.
A hora do almoço no computador não seria a forma mais saudável de ingerir a segunda refeição do dia, a hora da festa dos carboidratos, mas é nessa hora em que googlemente passeia pelas coisas paralelas, pelas vias.
A comida esvai, entope, desalimenta.
O relógio na tela indica faltas. Quartos para.
Anda no corredor de ecos, chão rajado de saltos. A porta prateada abre, o peso desce e sobe. Pisa em degraus cobertos de borracha. Tropeça. Não cai. Anda em desnível até o ponto.
Sobe com impulso.
Puxa a corda.
Salta.
Três voltas, a porta bate na parede. Abre portas: microondas, despensa, armário, geladeira.
O vidro conserva o refrigerante. A louça esquenta o arroz.
Banho, contatos, cheiros, lembranças e a água.
Deita e desliga. A TV liga.
As mãos não param, procuram. Os dedos sentem falta. Está preso ao tempo, à cama, ao lençol.
Dorme (e) só.
12:49 - publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 11h49
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Escalada indoor

(Tamara de Lempicka)
Espécie de pozinho de giz nas mãos. Garantia de atrito sem maiores choques. Sairia sangue caso não formasse aquela nuvem de farinha na sua mão?
Estava de bermudas pretas, algo meio anos 80, cotton lycra. Completando o visual, o top cinza. Achara-o velho, no armário. Mas, ainda com elasticidade. Sentiu-se o top.
Estava longe de conseguir encostar o dedo mindinho, que fosse, no muro. Escalada indoor. Farinha nas mãos, pegava com força em cada reentrância-pedra-artificial presa na parede bege. Bege não é cor de pedra. Pseudo-modalidades são famosas nos anos 00. Depois dali, iria para um passeio no bosque em curvas e ladeiras. Bike indoor. Um telão, na sua frente, cheio de árvores projetadas fazendo sombra em um chão barrento pós-chuva era o que ofereciam como pedalada ao ar livre. Imaginava, enquanto na ladeira, que a qualquer momento borrifariam cheiro de chuva na sala. Infelizmente, ninguém pensou nisso.
Em casa, depois de um banho de chuveiro, ao som de seu novo CD de barulhos da natureza, costuma aplicar óleo de sementes de girassol e amêndoas presos em embalagem branca no seu corpo. Deitada, com roupão de linho, espera agora, por seu marido. Está disposta a praticar com ele a posição mais instigante que viu no livro do Kama Sutra, comprado no amoronline. Ele chega e ela joga-se em cima dela, querendo ser joystick, mouse, teclado. Liga o ar condicionado para climatizar o ambiente e serve vinho para os dois. Ambiente serrano. Depois do sexo papai e mamãe – não houve equilíbrio da parte de ambos para o "polvo", página 34 – ele vira para o lado e dorme.
Ela entra na sala de chat e se diz 23 anos, loura, magra e alta.
Encontra seu par perfeito. 35 anos, alto, moreno, olhos verdes.
Marcam encontro para o dia seguinte, na cafeteria. Ela estará de preto e ele estará de calça jeans e blusa branca. Ela espera sentada tomando um capuccino, vestida de rosa. Passa um homem de terno e ela se pergunta se ele estará realmente como prometeu.
Ela não está. Nem é.
Pega suas coisas e vai para a academia. Um passeio no bosque a animará.
17:23 - publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 16h23
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Dois laços azuis

(Schiele)
Escorreram lágrimas vermelhas dos seus olhos. Não conseguia conter aquela escabrosidade e sentia-se nervosa com aquilo. Estava no banheiro do colégio e terminariam vendo. Não, nunca tinha lhe acontecido nada parecido. Não soube no que pensar na hora.
Olhou-se no espelho, respiração acelerada, arfava. Pegou com mãos trêmulas um lenço que sua mãe pusera à força em sua pequena bolsa de criança e enxugou o rosto. Nos óculos, o sangue grudado, gelado, parecendo esmalte. Tirou-os com pressa, jogou-os na pia, ensaboou as lentes com os restos roxos do sabonete com cheiro de lavanda. Detestava aquele cheiro comum, cheiro de banheiro, cheiro sujo.
Saiu andando rápido, de maneira desajeitada, ajeitando os finos cabelos presos aos dois laços azuis, de cetim quadriculado. Prendia-os tão fortemente naqueles nós que sentia alívio ao soltá-los todo dia ao chegar em casa. Parecia um menino, andando com sua pernas finas, afastadas uma da outra, quadris sem nenhum balanço. Entrou na sala ainda suada. A merendeira caiu no chão e ela pôde sentir o movimento de pescoço de todos à sua volta. Apenas um pedido de desculpas, quase calado, serviu para que a aula continuasse.
Tabuadas, conjugações verbais, descobrimento do Brasil. Dor de cabeça. As maria-chiquinhas puxando todo seu couro cabeludo para trás. O corpo lutando contra a feminilidade, contra os sentimentos. Voltou para casa a pé, andando rápido em seu passo de pato.
Trancou-se logo no quarto. Enfiou-se toda debaixo do edredon.
Quando acordou, viu as paredes pintadas de sangue. As frases repetidas diziam: ande como uma mocinha.
15:46 - publicado por Crib Tanaka
Escrito por Crib Tanaka às 14h46
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