Costurei com as vogais um vestido de letras. Vazio e denso. Um buraco para pôr a cabeça, outro para os braços. As pernas descobertas pelo A da saia. O algodão reveste meu peito.
Ando pela casa atrás de linhas de bordado.
Em linha reta pelos azulejos da cozinha, brinco de equilibrista e sigo até a porta. Pelo olho mágico, não vejo ninguém. Ouço barulhos na porta. (?)
Volto rastejando, joelho ante joelho, pela mesma rota de ida. Demora. Dentro do vestido, é escuro. Parece que estou numa caixa, uma antiga máquina de fotografar. Nada reflete.
- Não posso falar agora. Deixe o seu recado.
Acendo velas no bolo de tempo. Duas camadas. Recheio de vento. Passeio o dedo e assopro.
- Após o sinal, diga seu nome e a cidade de onde está falando. (monossílabos eletrônicos)
A mesa está posta.
Murmúrios de consoantes atrás da porta. Hiatos em cima da cama.
- O número encontra-se fora de área ou desligado.
Rasgo minhas vogais, me descosturo, perco o ponto.
Malha desfeita, vontade apenas de ser nó(s).
Silêncio.