O carrossel, o pirulito, o realejo. Nada como uma vida à la sessão da tarde para clarear as idéias. Flora - cujo nome "verde" lhe tinha rendido muitos apelidos quando pequena - sempre refugiava-se no parque.
Naquele dia a vontade de esquecer tudo, pensar só em rir foi o que fez com que largasse os papéis em cima da mesa, computador ligado. A falta de onde encostar as mãos andava causando artrite precoce.
Jogou a camisola de algodão pra cima e colocou um vestido vinho, curto, de lã. Nos pés, sapatos fechados. Seu dia dorothy. Assim que pagou o bilhete, viu que não tinha mais volta. Os cabelos embaraçaram-se na montanha russa, de onde saiu enjoada e contente. As pipocas voaram quando saiu correndo para não perder a mulher gorila. E voaram mais ainda quando saiu correndo de dentro da tenda escura, amontoada de olhares atentos, de vidro, ressecados pela euforia do suspense. Pesque e pague, carrinho de bate-bate, espirais doces derretendo e grudando nos cabelos finos.
Na roda gigante, sentiu medo. O banco estava gelado. O alumínio meio descascado marcou a parte de trás da perna. Prendeu os dedos firmemente no encosto. Quando os pés chegavam perto do chão, sentia um frio subindo da barriga ao peito, cortando o dia. A barra da saia subia com o vento, o vento aumentava a roda, que girava e aumentava o tempo, o sol indo embora, as risadas ecoando, a noite chegando. Na mesa, os papéis vários, janelas brilhando, o jantar. No elevador, as impessoalidades da rádio, os espaços delimitados, o boa noite automático. A roda girava, cada vez mais devagar e com mais força. O estacionamento e as vagas. A chave caindo, o celular tocando. na roda, o corpo cedendo à cadência, parando a rotação. A cama intacta, as almofadas com cheiro de lavanda, a tv no stand by. As risadas cessando, as lágrimas caindo e a certeza de que o banco ainda estava vazio.
09:37 - publicado por Crib Tanaka